quarta-feira, 29 de março de 2017

recomeça a temporada de soños:

e neste, pegamos o mesmo ônibus,
o vejo num corpo de velho,
que atravessa o corredor.
alguma peça, desvozeada, sai na minha boca
ela cochicha em tom berrante:
-eu te amo.
a porta se abre porque,
estamos bem, justa mente.
é que a porta se abre para você.
seu aspecto quer dizer mais que há voz:
o que nunca compreendi.
você amassa os pés nos degraus porque
a porta se abre.
enquanto eu conservo o gesto disforme:
e você responde com os dentes
afiadamente belos que logo nos veremos.

quarta-feira, 8 de março de 2017

passei a dormir com dois
travesseiros.
hoje pensei: a gente parte um tecido sabendo
da linha
e agulha
para remendo?

estou sem vontade de cozinhar.
também não consegui ainda saber, do que nunca na verdade se sei não estou nada sabido, sabe?
hoje estou cheio de dores no meio, da testa.
no olho direito algo coçando desde acho que uma hora da tarde,
lavei lavei lavei.

o ônibus não passou,
um carro me atropelou, a perna.
foi de leve, dói de leve, mas
será: quando eu falo que não doeu
é porque doeu e eu quero que não doa?
doar, a dor.

e tantas coisas que me saltam aos olhos, como imagens,
na ordem e linha do devir (de quem levanta da cama, a insistência de olhar tudo como nada, cada coisa como coisa e simples coisa, desnomeada e suscetível de qualquer que seja)
podem não ter transmutação pra outros olhares,
as refotografias da fotografia que vejo, daí imagens e mais, seus apetrechos filtricos.
tantas, intensivo e caótico,
é conter né.. mas é que são tantas, se deixar fico o dia inteiro deslizando e deixando
os olhos arderem.