quinta-feira, 15 de junho de 2017

sabes

por este caminho se chega num desvio curtinho
que é quando a boca pronuncia um som
que ao longo do percurso se despe das 
das coisas.
mas o coisa, a algo, 
é e não é, na falta e no que se pospõe. 
olha eu, é:
falei de boca toda cheguei a lugar 
onde os muros são ainda em tijolo. 
abra bem as pestanas e as palmas do corpo: 
assim se chega ao som, e ao som se chega ao seu. 
guarde-o! 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

retrato de quando eu

te cubro de eternidades
dessas que dissolvem, o tempo.
e juro: sou persistente ao fogo,
resistente ao desejo,
ventania, sou ventania
que faz curva, e leva a palavra pro fim.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Só se abastece de mágica

entre a última grafia e
essa madrugada, não há interrupção.
a recorrência é soño, só.
- coloque-a no meu punho! -
encontramos na colisão, e na certeza de que
eu não tinha separado lugar pra isso, nada:
permanecemos incontros.
sorrio, quando sou atravessado por uma consideração:
- ele não sabe por dentro! -
o que praticamos, ou o que preencheu esses minutos delongados? - sou incapaz
de saber -
apenas que a sua partida é sempre um arremesso, meu olhar te invoca
e te afasta.
- adeus - com efeito, era o que eu sempre quis dizer.
da mochila preta (que pra mim ela sempre sorriu, por ser mistério e concreta)
você retira um envelope, branco, Espesso e denso,
Física também mas não só, não só.
- coloque-a no meu punho! - eu disse.
e foi entre os livros intrometida, por você.
- Fique, fica comigo!
o envelope, que ouso chamar carta, foi engolido entre os papeis.
vez que, muy temprano, me ergui da cama
para investigar até qual seria a intenção real de um soño.
Em que o poema mais lírico,
Se mostre a coisa mais lógica.

*em paralelo à "Trovoa" - Metá Metá

terça-feira, 11 de abril de 2017

espessa nuvem

me pergunto hoje que é
onde eu estou.
até que segundo ou dia, 
continuarei construindo sua 
imagem em cada
pedra no caminho
que faço que droga. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

responsabilidade

eu tinha medo de esquecer
o cheiro que acompanha sua pele
em cada sua parte.
la longe sua falta me encosta cá.
micro sentimento
que reverbera na forma que eu me mostro ao mundo.

não sinto falta de nenhuma parte dessa costura, minto.
eu sinto falta do tempo que não soube lhe dar, sinto muito.

cada vez que esqueço, é a condição que me bota nos
olhos a memória.
eu respiro,
pedindo ao ponto de ônibus, ou aquela esquina, ou aquela porta que você costumava parar
(quando me oferecia um punhado, na colher de chá, o seu todo) mas peço, quando volto pra casa depois de um dia todo de tudo, olho pro seu canto de me esperar: - por maior compreensão, do desejo interdito! que me foi pouco fermento nessa comida.
socorro. digo, to pra dizer, digo comida azeda, eu quem diz digo, que responsabilidade dizer, diga não. cuidado, eu digo para dizer o que lhe escapa, por outras vozes. digo, seja assim quem segue que vou também, digo sou algo, como você... digamos pois como nada somos.

sábado, 1 de abril de 2017

cisma

sou consumido de mim mesmo durante  o tempo do meu consumo.
é que algo me mora comigo - pessoa que diz isso!
que será? me desconheço,pois conjunto este,
que sou se não outro ? estou confuso isso.
inexatamente eu, duvidoso me apareço no espelho que mente
pra mim, ou eu ou mesmo, os olhos de quem vê são
os que roubam e devolvem essa imagem.
se esse vidro reverberasse, no sentido de criar uma fotografia paralela ao
corpo que se apresenta frente a coisa: seria ? qual lhe/me apareceria?
é cópia aquele ali, ele ri. nada me representação.
enquanto o outro que surge está totalmente ou igualmente não, ele está proximamente de uma cor
olha a cor, não. olha o animal que lhe brota na boca num devir sou eu quem sou. me encontrei na história e se asseguro de que, se tem nada quer dizer: cabe imagens leves ou pessoais.


quarta-feira, 29 de março de 2017

recomeça a temporada de soños:

e neste, pegamos o mesmo ônibus,
o vejo num corpo de velho,
que atravessa o corredor.
alguma peça, desvozeada, sai na minha boca
ela cochicha em tom berrante:
-eu te amo.
a porta se abre porque,
estamos bem, justa mente.
é que a porta se abre para você.
seu aspecto quer dizer mais que há voz:
o que nunca compreendi.
você amassa os pés nos degraus porque
a porta se abre.
enquanto eu conservo o gesto disforme:
e você responde com os dentes
afiadamente belos que logo nos veremos.

quarta-feira, 8 de março de 2017

passei a dormir com dois
travesseiros.
hoje pensei: a gente parte um tecido sabendo
da linha
e agulha
para remendo?

estou sem vontade de cozinhar.
também não consegui ainda saber, do que nunca na verdade se sei não estou nada sabido, sabe?
hoje estou cheio de dores no meio, da testa.
no olho direito algo coçando desde acho que uma hora da tarde,
lavei lavei lavei.

o ônibus não passou,
um carro me atropelou, a perna.
foi de leve, dói de leve, mas
será: quando eu falo que não doeu
é porque doeu e eu quero que não doa?
doar, a dor.

e tantas coisas que me saltam aos olhos, como imagens,
na ordem e linha do devir (de quem levanta da cama, a insistência de olhar tudo como nada, cada coisa como coisa e simples coisa, desnomeada e suscetível de qualquer que seja)
podem não ter transmutação pra outros olhares,
as refotografias da fotografia que vejo, daí imagens e mais, seus apetrechos filtricos.
tantas, intensivo e caótico,
é conter né.. mas é que são tantas, se deixar fico o dia inteiro deslizando e deixando
os olhos arderem.




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

dimensões do diálogo

você é areia movediça quente numa noite extremamente fria e insuportável,
algo que mordo e em cada pedaço um gosto
de desequilíbrio .
assim o fio que nos limita, nos mantém 
arrebenta, e costurar é 
fazer nós.
a corda todas as madrugadas antes de dormir 
estou extraordinário,
afirmo pra ver se te apreende o meu não sou. 
sinto falta de cada vez que nunca estivemos tão unidas, feliz demais viu?
nunca vi dor no peito tão boa, pássaro parado
em chumbo. 
o tecido é de mundo
a mancha é de café. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

vende-se

na esquina da tamóios com rua da bahia
bem em frente ao ponto de onibus
tem uma loja de coisinhas variadas, roupas brinquedos material escolar.
um moço que trabalha lá
cada vez me aparece na porta com seus produtos
apropriados no próprio corpo, perde identidadade idade e se é o que se propõe. 
algo de fantasioso mesmo
e o corpo também se monta
ele performa aquilo 
ali, e a proposta é comercial, ao vivo.
vez ou outra alguma criança 
ou pessoa mais de idade
olha pra figura, que também sorri,
a figura aponta
na direção do objeto
na direção do corpo que traduz a intenção
ou qualquer que seja. não posso sair também afirmando demais
eu penso as vezes em pegar ônibus por lá: pela distração

o que tem de bonito nisso: nada
talvez as cores dos penduricalhos etiquetados na china
ou a coisa mundo que move, compra vende
penso se é escape, pelas possibilidades de ser
será?
a meta que precisa ser cumprida todos os meses
seria?
agora ele me aparece com um garfo de três dentes
do diabo
e acende vermelho
ele ainda ri. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

rastro essa luz

eu vou sair daqui,
é capaz que me encontrem numa dessas ruas caminhadas dos meus pés.
me perguntaram se é por motivo de cansaço:
me doem algumas coisas embora eu não entenda como cansaço.
estou cansado!
mãe: eu brincava tanto e pedia mais tempo naquele bairro perigoso onde eu cresci
e ostentava meus esconderijos secretos, redundância semântica à infância praticamente suicida.

viver, e estar apaixonado pela seja qual for coisa - não é por motivo de cansaço.
não aceito ter que sair de um hábito para só assim enxergar uma foto na vida.
uma espécie de colher nadas, assim é um artista mesmo, quando coisa.
não aceito quem não reinventa a própria sede. na verdade, eu só não compreendo.

anuncio o concreto que soma ao céu num limite muito sutil, se registro já perco, não tem lógica nisso. eu não sei se aproprio, é que toda essa significação saltita até quando procuro atalhos ocos, quando faço percussos calejados dessas ruas caminhadas dos meus pés...

queria desgarrar esse olhar torto de ver a vida, até perceber que é ele que me mantém viva.
e eu vou sair daqui provavelmente num deslocamento de quem adentra, outra e mais outro instante já. dizer que se vai é ir na direção circulada, redesenha a marca da pegada na poeira, o grão, escurece na luz, que aquece a lâmina de fazer imagem nossa que bobeira é essa

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

não sei se sinto falta ou ar demais

deformo-me num ano novo
de muito nadas.
hoje olhei a folha seca no chão em
meio a tantas outras
folhas. verdes como sou quente.
minhas juntas desmancham,
do estado líquido te grito: ou vão, vem
ser meu?!
mais um tempo em que se medem
na tentativa de limitar
e poder ultrapassar os próprios limites: assim não
se faz subversão.
pensei mais sobre essa de mexer nos significados: até que ponto
te meto uma vírgula?

domingo, 18 de dezembro de 2016

pedi pra não falar comigo

saio de casa, todos os dias
pensando te ver
imagino que me vê
me comporto para você

desejo
seu
olhar
não
mais
que
ti

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

apenas referências

se me arrependo claro
que não hoje 
talvez nunca, 

das palavras 
de dentro pra dentro
da boca
silencio.

o que mede um tempo enquanto somos?
seria intenso enquanto nada, das partes que se dizem 
estar em, com, dentro, em conformidade: desforme
aqui começa aqui se termina. 

mero ponto de partida
pro primeiro esperar você. 
mesmo ponto, lugar, espaço, entrada 
agora a gente desvê. 
ja tenho de você boa coisa
pra sentir paz e 

nada.

mas nada, é tão fácil
lugar branco demais
toalha branca
de projetar
do começo ao 
você, do começo ao eu
é o que sinto, na verdade. 

domingo, 4 de setembro de 2016

fisgada

engessei
e falei de boca vazia
sobre o devaneio
nosso.
ou
meu.
aproximo-me e deixo-me ti.
se, coisa atinge
é bem aqui ó _______
vai-se levantar, o dia começou ontem à noite
assim que se deitou
a lama sob o corpo
que se abre áspero e fascinante. 

eu também deliro,
e não sei por onde essa desgraçada da metáfora entrou
pra expurgá-la.

a gente dói: vejamos.
e é justo a matéria não se revelar
quando é o desvio que nos resta.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

primeiro ato



assim quem sabe, ser.
me dói, ou conforta
o recreio dos não ditos,
a fantasia genial de projetar
a gente.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

azulejo datado

o hoje transpõe um ontem que é eterno.
me pergunto até que momento é memória, outra, é fotografia, é filme: é uma ficcão salva pela experiência que a pele guarda. somos a grafia, a qualquer coisa de viva, reinventada e reafirmada. moléculas em devires a gente. não é medo de dizer -sempre-, mas sabedoria de dizer -hoje- enquanto todos os tempos.
na minha composição algo de você sobressai
e creio
que as formas
são elas descabidas,
ou uma massa quase líquida a preencher o espaço.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

ficção

repito!
que o que está fora continuará
caso me interrompa
ou perfure
essa máscara de saberes:
eu serei o mesmo!
eu não serei e sei
do que me atravessa, por tantos caminhos.
não serei, e ensaio
vejo, visto, como quem veste qualquer tecido de mundo
ainda em processo
de desnudar-se
caso alguma alma evapore.
irei ocupar a falta


sexta-feira, 24 de junho de 2016

o cheiro da gente

ser é
ser em medida
da proporção perdida.
da falta ambígua de uma essência.

hoje sou,
mais um
a ser nada, afinal.
é a soma da vontade
nalgum momento
interdita.
é a soma de um
dois
três
corpos, circulantes, numa
cama
pequenamente grande.
enormemente pequena
porque desintegramos.
no teto, além desse,
outros, e por fim
o céu: corre estrelas, fazem um risco
como se fotografado.
enquanto permaneço,
a par de que passo também.
e de tudo, um fragmento: do discurso?
dos pés, das pernas, as mãos, os corpos.
os toques na medida de toques mesmos:
se tocam.
é dissipando a consciência que sou continuado,
à entrega, a dança, a permanência parece reger um fluxo ininterrupto.

da pequena
às grandes mortes.
a noite apertada e longa.
de um lado a parte que me toca, do outro a parte que me toca
do meio a parte que te toca de todos os cantos as partes que se tocam.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

vitrine

no livro de Beauvoir
as belas imagens
são a composição
do grotesco.

no livro do Barthes
o discurso amoroso
é fragmento,
mas do todo, que somos. 

no surrealismo de Buñuel
as camadas de possibilidades
do desconforto
da ironia, ao riso
da insonia, do absurdo
nada mais diz que
tudo.