terça-feira, 12 de julho de 2011

"O telefone antigo, parado na mesinha de canto, tocou.
A menina correu, sentiu o peso nas mãos e falou
"Oi"
Saiu cansado mas apaixonado, esgotado de tanto esperar para sair.
A resposta veio breve e dela começou uma conversa, que se estendeu por horas, se repetiu por dias, que apaixonou os dois, os fez andar de mãos dadas, que os fez sentir na pele, e os entregou aos pais depois.
O olhar de reprovação, dirigido ao menino pobre sentado à mesa da família rica, o número absurdo de talheres brilhando sem utilidade, as roupas de tecido fino, os quadros de pintores famosos, as escadas, as janelas, as paredes, o teto, o chão, o teto, o chão.
Desmaiou de aflição.
Os pais falaram, não gritaram, sem demonstração de sentimentos disseram à menina que "É melhor que estude no exterior" A garota compreendeu que seria melhor, de fato. Não queria trocar seu futuro por uma paixão de adolescente.
Na França, virou mulher. Leu, escreveu, andou, mas só de carro. Foi bem sucedida, mulher inteligente, dona do seu próprio nariz, seu prórpio carro, apartamento, guarda roupa, cama de solteiro.
O menino, agora homem, ficou na cidade pequena. Amou uma ou duas mulheres, casou-se com a terceira. Teve uma dúzia de filhos, uma casa, uma varanda com rede pra deitar, um jardim e uma cama de casal.
Ele não precisou de telefone, não teve carro e acordou todos os dias com um beijo da mulher.
Ela chegou tarde, acordou cedo, tomou café na esquina e checou o e-mail. Mas dentro do apê moderno, no quarto com vista para a cidade, ao lado da cama de solteiro, repousava o telefone antigo, que não tocou mais."


Bruna Oliveira  - My pencil lines 

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